domingo, 25 de abril de 2010

John Stuart (Título Provisório)

Por mais que tentasse me concentrar na prova, não conseguia. Minha concentração oscilava entre a prova e a próxima refeição. Havia dias que não me alimentava, estava tentando ao máximo me conter, precisava dar um tempo desde a minha chegada para que tudo começasse.

Respirei fundo e olhei para a prova de novo. Ainda me perguntava o motivo pelo qual fazer o colegial pela milésima vez na vida, mas não encontrava respostas. Se bem que, particularmente, eu prefira estudar a vida inteira a trabalhar. Nunca precisei trabalhar. Não seria agora que começaria. Mas estudar também cansava. Depois dessa tirarei umas férias por um longo tempo ou mais.

Respirei fundo novamente. Mas antes que conseguisse sequer ler a questão, a abstinência prolongada finalmente se mostrou. Depois de tanto tempo sentindo a mesma dor, já havia me acostumado a não demonstrar. Não que não incomode, claro que incomoda, mas ninguém tem alguma coisa a ver com isso.

Discretamente me levantei e entreguei a prova para a professora. Ela me olhou assustada. Havia apenas cinco minutos que a prova havia começado e eu havia entregado-a em branco. Sorri educadamente e me retirei da sala. Pude sentir alguém me acompanhar com os olhos, mas não podia me dar ao luxo de parar.

Andei pelo corredor em passo apressado. Saí do prédio enorme e fui direto para o estacionamento. Entrei no meu Genesis. Sim, eu sei. Ele não é um carro lindo maravilhoso, mas convenhamos que o seu painel é perfeito! Só comprei por causa disso.

Disparei com o carro pelas ruas da minha mais nova cidade. Como eu disse, o Genesis não é lá grande coisa, mas não deixa de ser alguma coisa. Algumas pessoas ainda olham quando eu passo com ele. Não tantas como quando eu passo com a minha Mercedes-Benz CLS. Mas por um lado isso é muito bom, chamar atenção nem sempre é produtivo para mim.

Dirigi por quase duas horas e meu estado já estava lastimável. A abstinência estava pior. Não havia afetado só as mãos, podia sentir algumas outras partes do corpo sucumbindo, também, à sua força.

Parei na próxima cidade e precisei estacionar o mais longe possível. Meu carro não poderia ser vista naquelas redondezas. Com certeza precisaria mudar de carro, pelo menos quando fosse me alimentar. Estacionei perto da margem da floresta. Como já estava escurecendo a cor preta do chassi favoreceria o seu encobrimento.

Tirei o terno azul royal, com o brasão da escola, que vestia e o depositei do porta-malas. Por ironia do destino havia colocado um moletom preto no banco de trás do carro pensando que estaria frio. Vesti o moletom e entrei pelos fundos de uma fábrica.

Havia um galpão imenso e super barulhento. Perfeito. Continuei andando até achar uma porta enorme. Entrei silenciosamente. Com o passar dos anos, havia aprendido perfeitamente como entrar e sair de lugares sem ser percebido. Dentro do galpão havia peças de aço, com o formato de trilhos, mas pareciam também estruturas metálicas para construção.

Depois de ter andado mais ou menos dez metros, comecei a ouvir som de risadas e brincadeiras. Apressei o passo e me deparei com um verdadeiro banquete. Havia uma roda de homens em volta de uma mesa. Eles pareciam estar jogando cartas. Eram quatro no total, mas somente três seriam de algum uso. O outro era muito velho.

Os outros três pareciam ter no máximo vinte e cinco anos. Não pude evitar sorrir. Isso sim era sorte. Não precisaria me alimentar por um longo período, a não ser por diversão. Agachei e me preparei para o pulo. Meu corpo parecia agitado, perante a expectativa de tal banquete.

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