-- Tenente? – chamou o policial.
-- Sim, cabo? – respondeu o tenente Balaguer. Estava super cansado e mal podia olhar para aquilo tudo, só faltava o cabo McCainnon começar a fazer perguntas idiotas.
Elliot McCainnon tinha exatamente vinte e três anos. Um corpo mais do que ideal para um policial. Mas uma cabeça nada satisfatória para a Divisão de Homicídios. Sempre fazia perguntas óbvias e nunca parecia entender nada que lhe falassem a não ser que fosse uma ordem direta. Seu cabelo era ruivo e curto. E sempre mantinha uma barbicha rala no queixo, parecendo um tufo laranja. Seu rosto ainda possuía algumas espinhas da adolescência. Qualquer que só visse seu rosto acharia que seu corpo fosse magrelo e raquítico e que levaria óculos em algum lugar da mochila ou uma revistinha na mão. Mas se vissem só o seu corpo achariam que era algum tipo de fisiculturista.
-- Senhor, há alguns repórteres lá fora. E eles estão exigindo uma declaração oficial sobre esse homicídio – o cabo respondeu.
O tenente continuou parado. Sua cabeça voava. Quem poderia ter feito aquilo? E como? Os corpos apresentavam sinais de decomposição total. Pareciam que estavam mortos há muitos anos e não horas. Não havia nenhuma pista no local. Nada. Nem uma pegada sequer. Estavam ali a cerca de três horas e os peritos pareciam perdidos. Estavam checando o local pela quarta ou quinta vez. E agora os repórteres queriam uma declaração oficial.
O cabo pareceu perceber como o tenente estava se sentindo e ficou realmente com pena. Havia três anos que Elliot fazia parte da Divisão de Homicídios e o Tenente Balaguer era uma espécie de lenda. Nos três anos que convivera com ele, o tenente havia resolvido mais de quinhentos casos. Mas agora, pela primeira vez, não havia dado sugestões, não havia pedido um cigarro, um café ou donuts. Havia apenas ficado parado olhando para aqueles corpos horríveis que jaziam no chão, como se estes fossem lhe dizer alguma coisa.
-- Bem, cabo, onde eles estão? – perguntou o tenente erguendo a cabeça.
Cabo Elliot assentiu e conduziu o tenente até a porta enorme que levava aos fundos da fábrica. Havia uns vinte repórteres conversando. Quando viram a aproximação do tenente foi possível ouvir as centenas de cliques das máquinas fotográficas. As perguntas jorravam das bocas dos repórteres como jatos. O tenente respirou fundo e começou a dizer, pela primeira vez, que não havia nenhum tipo de pista. Eles não tinham por onde começar.
--- Estava passando mal – respondi pela décima vez.
O fato de ter saído correndo da sala acabou me deixando enrolado com a diretoria. Pela primeira vez nessa escola fui chamado a entrar na sala do diretor. Até que ele era um cara legal, tirando o fato de sempre ter um charuto na boca que fedia tudo em um raio de quase um quilometro. Sério.
--- Sr. Stuart, você sabe muito bem que não acredito em uma palavra do que diz, mas não vou mais tirá-lo do seu horário de aula – ele disse por fim, apontando a porta com a cabeça.
Saí da sala mantendo o ar de injuriado, mas assim que fechei a porta não consegui segurar o riso. Parei no balcão da secretaria, adorava bater um papo com Beth. Era incrível poder ver suas pupilas dilatarem enquanto a elogiava.
--- Bom dia, Beth – cumprimentei, me inclinando em sua direção.
Beth era uma coroa sexy. Seu corpo era volumoso e bem definido. Podia apostar sem medo que no passado tinha sido uma bela mulher. Mas ela não era casada. Pelo seu olhar sonhador e a leveza com que levava a vida, não fora por falta de pretendentes, mas por uma escolha pessoal. Seus olhos eram amendoados, redondos e pequenos. Ela sempre usava óculos antiquados. Seu cabelo era preso em que coque que deveria ser sério, mas a deixava mais bonita ainda. Sempre usava saias de cintura alta e blusas de gola rendada. “Uma vovó gostosona” como eu gostava de chamá-la.
--- Bom dia, Johnny – ela cumprimentou de volta, saindo da escrivaninha e vindo em minha direção com um sorriso enorme no rosto.
Nunca gostei que me chamassem de Jhonny, mas com ela era natural. Como um relacionamento entre avó e neto. Minha avó verdadeira morrera a um longo tempo. E encontrar conforto em Beth era muito bom.
Começamos a conversar sobre amenidades e a vida dos professores. Beth sabia de tudo, até a cor da roupa debaixo de cada um. Ela dizia ter um “dom” para descobrir as coisas. Eu apenas concordava e tentava não parecer preocupado com a possibilidade de ela saber tudo sobre mim.
--- Então, pare de me enrolar e me conte sobre o que arranjou com o... – ela começou, mas algo que ela viu acima do meu ombro a fez emudecer.
--- Hum, Beth o que...? – comecei também.
Quando me virei percebi o porquê do espanto. Uma garota estava entrando pela porta da secretária. Ela era simplesmente perfeita. E acredite, para eu dizer isso, tem que ser muita coisa. Já vi quase todos os tipos de mulheres bonitas na vida. E ela ganhava de todas.
Sua pele era absurdamente alva. Seu cabelo era negro e ondulado, descia até o meio das costas. Seu corpo era sinuoso, com curvas fartas e bem definidas. Seu rosto era liso e alvo com enormes olhos verde-claros. Seus cílios eram espessos e davam um contraste imenso contra a cor eletrizante dos olhos. Sua boca era cheia e delineada. O nariz pequeno e meio arrebitado. Possuía um ar de sensualidade absurdo. Os poucos passos que deu até o balcão ao meu lado revelaram o quanto sexy uma mulher pode ser ao andar.
--- Bom dia, Srta. Balaguer – murmurou Beth.
Beth se virou atordoada para a escrivaninha e começou a mexer em uma pilha de papéis organizados. Enquanto a nova aluna olhava ao redor não pude impedir de olhá-la melhor, a procura de algum defeito. Sem sucesso. Beth voltou até o balcão e entregou o mapa da escola e os formulários para a novata.
Não olhou nem um momento sequer para mim. Por mais que não quisesse me sentir ofendido, não pude evitar. Continuei olhando para a porta por onde ela saiu. Beth pigarreou e voltei a olhar para ela.
--- É, parece que essa escola ficará um pouco mais “agitada” para algumas pessoas – ela comentou.
Pode ter certeza, pensei. Mas para mim que não ia ser.